BEM-VINDOS

Desejos

terça-feira, 23 de março de 2010




Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado...

Vinicius de Moraes

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sexta-feira, 12 de março de 2010


Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.


Vinicius de Moraes

quinta-feira, 4 de março de 2010

CEM POR CENTO


Há muita gente que diz coisas belas
Mas essa gente que diz "vai por ela"
Eu que também fui por ela, sei disso
Eu é que amei, eu é que sei
Todo despeito que há nisso
Porque pra mim ela foi, cento por cento
Nunca deixou de me amar, um só momento
Pode falar quem quiser
Mas no meu fraco entender
Ninguém, ninguém foi tão mulher.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 3 de março de 2010







Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Vinicius de Moraes



É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem...
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhavel na axila uma doce relva com aroma próprio

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche

Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber

Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.

Vinicius de Moraes

terça-feira, 2 de março de 2010



Ponho nesta canção
Toda a minha emoção
Toda a sublimidade do meu amor

Nela vai eternamente o beijo mais ardente
Para a beleza da tua boca em flor
Eu a compus chorando, Nas noites cheias de luar
E tem a sinceridade que vive no meu olhar
Junto a ti deposita a saudade infinita
Que eternamente habita em meu coração.

Vinicius de Moraes

domingo, 28 de fevereiro de 2010


Coração, toma jeito
Bate mais devagar em meu peito
Deixa a mania do amor
Se sou feliz ou infeliz
Pouco importa, o que conforta
É ter vivo esse meu coração.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Eu Te Amo, Amor







Ah, pudesse o tempo resumir o sofrimento
De uma vida inteira num lamento só de dor
Se dizer pudesse o desespero de partir
E que amar é triste
Que a beleza morre em flor
Dele ao infinito desceria num clamor
Esse eterno grito: Adeus, Adeus, adeus, amor
Eu sei que as minhas lágrimas de amor
São como a estrela que reluz
Pela manhã no céu
Estrelas da manhã no céu
Chorando a própria luz
Oh, insensato amor que me roubaste toda a paz
Se ao menos eu pudesse deslembrar de tanta dor
Mas como esquecer teus versos tristes e fatais
Se eles são o canto do teu sempre trovador
Ah, que eu nada sou mais do que um pobre sonhador
Que jamais te esquece.

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Tristeza






Tristeza
Por favor vai embora
A minha alma que chora
Está vendo o meu fim

Fez do meu coração
A sua moradia
Já é demais o meu penar

Quero voltar aquela
Vida de alegria
Quero de novo cantar.

Vinicius de Moraes

sábado, 30 de janeiro de 2010

Eu E O Meu Amor







Eu e o meu amor
E o meu amor
Que foi-se embora
Me deixando tanta dor
Tanta tristeza
No meu pobre coração
Que até jurou
Não me deixar
E foi-se embora
Para nunca mais voltar.

Vinicius de Moraes

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

JANELAS ABERTAS






Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar

Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar

Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor

Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor.

Vinicius de Moraes

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Soneto









Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.

Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme

Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.

Vinicius de Moraes