


Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado...
Vinicius de Moraes

Há muita gente que diz coisas belas
Mas essa gente que diz "vai por ela"
Eu que também fui por ela, sei disso
Eu é que amei, eu é que sei
Todo despeito que há nisso
Porque pra mim ela foi, cento por cento
Nunca deixou de me amar, um só momento
Pode falar quem quiser
Mas no meu fraco entender
Ninguém, ninguém foi tão mulher.
Vinicius de Moraes


É preciso, é absolutamente preciso As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.
Vinicius de Moraes


Ponho nesta canção
Toda a minha emoção
Toda a sublimidade do meu amor
Nela vai eternamente o beijo mais ardente
Para a beleza da tua boca em flor
Eu a compus chorando, Nas noites cheias de luar
E tem a sinceridade que vive no meu olhar
Junto a ti deposita a saudade infinita
Que eternamente habita em meu coração.
Vinicius de Moraes






Ah, pudesse o tempo resumir o sofrimento
De uma vida inteira num lamento só de dor
Se dizer pudesse o desespero de partir
E que amar é triste
Que a beleza morre em flor
Dele ao infinito desceria num clamor
Esse eterno grito: Adeus, Adeus, adeus, amor
Eu sei que as minhas lágrimas de amor
São como a estrela que reluz
Pela manhã no céu
Estrelas da manhã no céu
Chorando a própria luz
Oh, insensato amor que me roubaste toda a paz
Se ao menos eu pudesse deslembrar de tanta dor
Mas como esquecer teus versos tristes e fatais
Se eles são o canto do teu sempre trovador
Ah, que eu nada sou mais do que um pobre sonhador
Que jamais te esquece.
Vinicius de Moraes





Sim
Eu poderia fugir, meu amor
Eu poderia partir
Sem dizer pra onde vou
Nem se devo voltar
Sim
Eu poderia morrer de dor
Eu poderia morrer
E me serenizar
Ah
Eu poderia ficar sempre assim
Como uma casa sombria
Uma casa vazia
Sem luz nem calor
Mas
Quero as janelas abrir
Para que o sol possa vir iluminar nosso amor.
Vinicius de Moraes








Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.
Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.
Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.
Vinicius de Moraes